Tenho 32 anos no momento em que inicio este Poema (20/01/2011) e pretendo alimentá-lo enquanto eu viver. E montado no lombo da mula manca poesia, meu alforje de pretensões ganha o mundo: mesmo depois de morrer, se Jesus ainda não houver voltado, alguém continuará este poema por mim, por si próprio, pelo poema - filho ou cão, finlandês ou guatemalteca, curitibano ou itaquaquecetubence.
Ora triste, ora alegre, ora claro como um riacho doce, ora prenhe de hermetismo como uma HQ do Moebius, esta é uma eterna obra-em-progresso, um poema que não pára, meta-poema inolvidavelmente - pois um pretenso poema-sem-fim precisa, com todas as suas imprecisões, ser meta(poema), (des)dobrar-se sobre si próprio, retroalimentar-se para (p)e(r)sistir.
Estranho poema estranhamente vivo em sua solidão multifária, eis o Poema Sem Fim...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Poema Sem Fim

esvaziar de vazio
um balão vazio

ninguém nunca me disse
que a Poesia era tão perigosa

achava 
que era apenas uma
Arte
com tudo de bom e grande e ruim nisso

mas é mais
há Vida
e Morte
envolvidas

- ninguém nunca me avisou.


21/01/2011
Meu Plano de Biografia
é fazer meu serviço
e morrer
é o cúmulo do anti-lírico, eu sei,
mas melhor é morrer e estar com Cristo


(Há barulho lá fora;
rumor de briga e gritos de ajuda

o poema cala;
vou para fora.)

25/01/2011


Mas o dia nasce, de novo nasce.
Antecipadas auroras brilham agora,
Uníssonas, poema,
Em teu mega-dia

Oh poema, o que fazes do tempo?

No fusquinha venho Chomsky p/ dissecar-te,
Barthes p/ demolir-te

E basta-me;
Injeto
Poemas concretos na ossatura do grito, rito
De ópera-rock
Guitarral me faço, cacofrancófono,
Grítico, granítico

Peixe morre pelaboca, e
Poetas,
E cada boca morre
De per se
Debaixo do sol

Bisfenol A, Parabeno,
Butil hidroxianisol,
Ácido perfluorooctanoico
Cuidadocomoque
Você come
Fala
escreve

Meus olhos sofrem retenções
Em virtude do fluxo de lágrimas
Na Perimetral; ah sammis,
Poeta chorão, poeta chorão!
E quero logo saltar ao Futuro
Mas não tenho transporte
Quero tornar para o antes
Mas qual!, não tenho passado
O único tempo que se presta
É só o presente que se realiza
No tempo que decorre desta
Palavra que você lê
                                lê lê
            lê
       lê            lê           lê
 lê
                                  lê                                lê

e enquanto você lê aqui n'aqui em casa eu busco
poesia no Google e encontro e leio poetas de vanguarda espanhóis que prometem o fim da Literatura para Agosto próximo, sempre Agosto. Por que não agora, ou esperar até Janeiro? Deixem-me transpirar só mais 1 poema, hermanos


6% do poema
Está inscrito
Em tudo que me é sonho

   6%


       6%

do poema

está inscrito

nas estrelas que constroem
a Constelação de Ursa Maior
    nas estrelas que constelam


       entalhado nas minhas costelas
com golpes
             6% precisos, 6%
                                              fatais

Na curva da estrada de volta


E a volta urge:
O poema se retroalimenta



(quantas revoluções
são possíveis para você,
Hoje?)

05/02/2011


Tua onibenevolência, Deus,
manifesta-a em minhas vielas bombardeadas

em minha Nantes,
em minha Londres,
minha Guernica, a primícia de todo o meu sofrer

e até em minha Dresden,
minha Berlim pulverizadas

Berlim-ao-Pó, parca colheita
pela multidão protosatânica
de meus pecados

                           pois também já endemoniei-me 
                            contra tudo o que se chama
                                    HumaNidaDE

e também já persegui o Teu povo, Senhor.
14/02/2011




sobrevoo o poema
e noto os moinhos de vento
em seu relevo
e feitorias, ruas de adultérios, c(omplex)idades
e todo o cortejo que acompanha a fauna
(perdoe-me, Senhor, mas todos os dias vejo-os
latirem e rugirem, e os acompanho) humana,
e todo o enfado (poetas morrem de enfado, leitor. Só pra constar.)

É isto o poema:
um moinho-de-tempo
a um tempo amortecedor, dispersor e fabulário
de minhas horas-dores
03/03/2011

Queria então criar cabras
e ter uma grande chácara
para todas as minhas fruteiras

e liberar-me num golpe, num lancinante golpe
(oh terríveis desenhos japoneses, como eu adoro golpear!)
de todos esses petropigmentos
que o asfalto impinge
e rodotormentos, ciberfestins de Belsazar,
ah

um lugar no ermo
onde eu pudesse realizar
o máximo ritual de transcendência desta Er@:
me  
 d  e   s    c    o      n       e       c         t          a           r

14/03/2011

Domingo de ruas vazias
Domingo dia do Senhor
é também meu dia
as ruas vazias
são minhas ruas
a solidão do mundo
é a minhamigainimiga solidão

           sou o mendigo deitado no vazio
                  que aguarda a misericórdia
      de um mundo vazio de misericórdia

                       sou o bêbado que no bar vazio
                       põe na jukebox músicas do Aerosmith
                       que agradam a meus ouvidos mas
                       esvaziam ainda mais
                      o meu balão
  
meus passos solitários
no centro vazio de domingo do Rio de Janeiro
são um poema não escrito
cabisbaixo, alfabetizando
não, pré-escolar ainda,
um poema que não pode signos
                                                    para se imprimir
mas inviolavelmente vivo
no vazio que a Queda outorgou

e aproveitando este vazio tanto vou andar até a Lapa
encontrar turistas perdidos neste grande vazio,
me apaixonar porventura por alguma holandesa
que, por aventura, me estenda a mão
(o tom de pele das holandesas é o mais bonito, ó leitor jovem e tímido que eu fui e que procura aprender algo do mundo lendo poesia; não faça isso, companheiro. Assenhoreie-se da verdade única de que a pele de pêssego avermelhado das holandesas é ainda mais labiríntica que a pele-de-mil-tons-de-café-com-leite das indianas, e abandone tudo por esta ciência, cada livro, e procure o amor longe do poema, na Holanda, na Índia ou no Sol)

e ou mas em meio a tanta solidão neste mo(men)to de dor
um homem no ônibus vem falar-me de 
Cristo
e eu lhe digo que sou seu irmão
e falamos de Ti, Senhor
e uma vez mais
a névoa é desfeita
21/03/2011


de pouco em pouco
percebo
toda a dor e angústia,
mesmo para o cristão,
vem do estado de Provisoriedade;
vem do (f)ato de eu ser um ser provisório,
num corpo provisório, num
mundo provisório, vivendo
alegrias e mesmo tristezas provisórias.

Mas quando se der a Singularidade Final, 
quando eu for transmutado para um corpo perfeito,
num mundo perfeito, desfrutando a alegria
perfeita, serei então
um ser perfeito, perfeito em Cristo Jesus,
onde todos seremos um, nEle.

Enquanto isso, a ausência disto, desta Completude,
desta Realização de Todas as Coisas
(pois só o que é Eterno, afinal, é)
dói, dói como um sino
que não para de bater em meu coração.
(Ainda que pare no seu)

Queimei todos os livros então
o Eclesiastes e Kierkegaard
foram-me suficientes para clarificar o tamanho descomunal de nossa Queda, o volume de espaço
que ganhamos despencando no Vazio,
no Abismo do Distanciamento de Deus (ADD).

Vaidade das vaidades, sim, no caos-buraco tudo é vaidade: A futilidade inútil de toda a nossa humana pantomima.

Milhares, milharais, arrozais de anos
e Salomão e Kierkegaard foram os únicos a compreenderem
quantas e quantas vezes Adão nos matou.

Adão nos matou³.

Sim, nos matou ao cubo,
Adão
deu start na Entropia

viram com dolorosa para ambos clareza
que Adão deitou tudo o que existe
no caixão do Provisório,
na tumba azul
e anti-azul do Absurdo.

(Cristo é para mim como o Anti-Provisório, o único Não-Absurdo, o que nos salva e salvará)

17/04/2011

Esconde 

esconde

meus sobrinhos insistem, quase toda noite insistem
e lá vou eu brincar
de pique-esconde   

                                        saúdo minha infância 
                                                enquanto corro,
enquanto me escondo ou vasculho

segunda feira farei 33 anos

e quando deponho minha cabeça
para contar até 30
a contagem desconstrói minha dor,
meus problemas são colapsados
na contagem, e tenho vontade
(me perdoe a tristeza do Poema mas o poeta é triste
como alguém que não se encontra)
de contar até cem, e mil, e contar apenas
e esquecer tudo nesta matemática

amanhã eles virão
até minha casa vazia
me chamar tio Sammis

vamos


vamos




vamos
06/05/2011




sou um pé sobre a sepultura de Nietzsche,

um daqueles a quem a busca da humana felicidade (Velocino de Ouro)
suicidou

mas, arre!, fui ressuscitado por Cristo

meus poemas, Poema,
são as paredes de um canil
e elas, elas-o-sem-forma, elas querem como que rebentá-las...
Ahh! o cão do que não pode ser verbalizado,
com que fúria investe contra elas!
Em vão, pois sua impossibilidade é a minha impossibilidade, 
sua impossibilidade é a minha humanidade

não tenho medo de ser redundante, Poema
e todo filósofo já provou contra sua própria vontade em seus (pr)óp(r)ios tomos que
palavras são impotentes para qualificar o Vazio;
ele é apenas aquilo que é
e que fica ali, solitária somentemente sendo

nosso Vazio é como
um cadáver de um grande  e
rechonchudo cão
que fica ali deitado no meio
da sala
um cadáver que não se decompõe
fazendo pouco caso das visitas


pois ao final você é isso, meu Poema,
uma redundância do HOMEM

volto como um cão a Drummond,
havia um cão fofo
morto no meio do caminho
          no meio do caminho
um 
cão
re
chon
chu
do
morto.

20/05/2011


Veja, Poema, o novo verso triste que escrevi:

(Re)abro a Caixa de Pandora
como um homem que toca
um realejo
em um funeral

A dor
é o evento fundacional de toda a Poesia
as flores vieram depois
pois
                                                                                             pois

Qual é o marco que delimita
o término do trecho
sob tua jurisdição, ó Poema?
Onde acaba a Poesia?
Chamemos a este limite
o Arco de Calíope,
o Fim da Fluição
- dancem rapinantes, desovem pois meu cadáver por lá, na curva do rio
e que seja o Aqueronte ou o Flegetonte, tanto se me faz - meu espírito já estará dando saltos (i)mortais no Rio da Vida a esta altura e a uma invencível altura -
e da Poesia meu tele/caleido/estroboscópio não carecerei mais

(Se ela não me pertence,
confesso aqui o meu grande pecado, Senhor:
Muitas e muitas vezes
escrevo como quem se vinga)
15/06/2011


Ontem à noite sonhei que evacuava o Poema de 
palavras, crianças e mulheres
livrando todos os (seus) inocentes
ficavam apenas os homens e o vazio,
cavalo e cavaleiro
(e ambos são o cavalo e ambos, o cavaleiro)
no campo de batalha da tela

amanhã sonhei que não acordo,
que o tempo dos verbos, do continuum,
da maturação das pêras sobre os balcões
nos poemas de Gullar se embaralhava,
como maçãs podres num cesto de algum navio pirata inglês
chancelado pela fleuma e pela rainha e pelas leis newtonianas

meu sonhar é (para) um deambular que enrede o Tempo em sua própria trapaça,
(que o engane enrole engabele)
 (qu)e lhe sobreviva
meu poema é um quebra-sonho que é um altissonante QUE,
uma (con)junção que não sabe onde se interpor
artigo substantivo interjeição interdejeto
de toda a literatura pretérita

chaparral maltrapilho a gritar de O Fundo do Poço:
- para o alto e avante!

07/07/2011

20:45 na fronteira entre Pasárgad@ e Shangri-L@; uma hora qualquer aqui no Poema
Cápsulas de solidão espoucam ao meu redor
e eu corro por sobre os prédios
esforçado com toda a perícia do meu parkour
esta noite eu sou uma vez + Batman
solitário caval(eir)o nas sombras
não vencido pelas sombras, mas seu simbionte
com um senso de missão invencível
e uma mega-solidão
que mulher alguma alcança,
su(pera/prime/porta)...

Não se engane por meus movimentos furtivos e trajes
sinistros
e perenes
lágrimas nos olhos:
eu luto pela volta de Cristo
que me libertará de minha simbiose com as sombras, com
as lágrimas
e deporá
todas as minhas cansadas lâm(in)as
31/07/2011


Hoje é o dia trinta de agosto do ano de dois mil e onze,
o último dia de meus quinze dias de férias
estou na praia e venta forte (sou
a única pessoa de meu convívio que gosta de ventos)
o mar, batido, chacoalha, ressona e une seu som 
ao do vento que vibra em minhas orelhas
(o mar detém a minha angústia 
quase como o Teu Espírito, Senhor),
e eles (as ondas e o vento, a mais perfeita cópula da natura)
sussurram como numa língua perdida e mística,
desaprendida em Adão:

PAZ...      PAZ...
                                     PAZ...
             PAZ...
PAZ...
                                              PAZ...
(e a singularidade desta sensação de paz - que é apenas intuída! -
é que ela transcende até mesmo a paz das amizades verdadeiras, 
de dois amigos que, quedados em silêncio,
comprazem-se na segura companhia um do outro)
         PAZ...
                                       PAZ...
PAZ...

uma entoação que nada detém,
um cicio que não cessa
ora espaçado, ora massivo, mas sem parar,
como se fosse a respiração de algo aritmeticamente
diluído em tudo, em todos os lugares
fluindo muito além
do que se pode chamar de 'vivo':
uma força que hipervive
como (e apenas par)a falar de um lugar
onde a Paz Ininterrupta freme,
onde a Paz-Sem-Fim
oceanicamente 
É
30/08/2011

Nas férias tirei uma foto especial para você, Poema:


(Não quero agourar-te, pânico amigo; longe disso!
É que sabemos que toda a Literatura
terminará em Cristo.
A foto é apenas uma rôta alusão
à Sua volta.)

Penso sempre neste dia
onde tudo aquilo que nasceu
com o Funeral Vivente, com Adão após a sua queda,
morrerá em sua imperfeição sistêmica e viral,
para que aquilo o Perfeito (a Unidade)
seja.

Sim, sei sempre o que de mim pensas, Poema pascal,
“circunvoluções maçantes para falar da Queda”
pois este é o tema recorrente aqui,
tatuo-o a frio em tua pele de LCD e bytes,
e suportamos ambos a sua dor.

Sei teu enfado, canino amigo: ele é como
Uma coleira que eu (c)alço.

(Pa)lavras se repetem em teu corpo, agriculturas,
como pequenos ossos legislativos de uma constituição,
passwords que levam a lugares azuis
ou a desolações.

Dê-se por feliz, meu torpe amigo:
teu hermetismo avança, profeta
08/09/2011


Como um pastel de frango com catupiry na banca do Russo
(bons pastéis que ele disse comprar já prontos,
de uma senhora do Portão do Rosa que tão bonito nome para um bairro,
quem terá sido esse Rosa? Preciso com cada vez + força do Google,
como ele de mim╞ bastando apenas fritá-los) e
esqueço por um momento a frígida morte
que tão de perto me acompanha
- moçoila desengonçada, cheia de Eva,
como uma menina muito bonita e desejável
mas que nunca namorou -
e que procura um príncipe ou um objeto
algo a que destruir, enfim
e me diz
"Você não serve para mim, tio.
Você já morreu mas o Rei lhe selou
para que continue combatendo mesmo
morto."
E vago então como um Caim sem crimes
mas tão repleto de amarguras
como um homem que transportasse sua própria masmorra às costas,
tendo a morte inútil ao ombro
como um papagaio caolho e roxo,
um demônio que tocasse uma incansável buzina
e me olhasse com espanto
de alguma maligna maneira feliz
por acompanhar um funeral ambulante

Trago em minha bolsa Yin suja chinesa
todas as armas de um assassino
e este demônio ombreiro,
por ele ser um demônio e por sua vuvuzélica buzina
e por ele não poder me finalizar, meu sonho é
matá-lo
com agulhas em seus pontos nevrais
e dores que ele demoniacamente
apenas imagina

mas isto também me é selado.

Eu vago. Dia após dia. Com a minha bolsa.

Até quando (todos estes) selos, Rei meu?
31/10/2011 


Vago pelas ruas da cidade,
vago 
pela rua das cidades
(pois há multiplicidade de mundos,
mas um só caminho)
e sobre minha cabeça
um céu oceânico é inundado pela fluição
das andorinhas, como a anos e anos não via

Andorinhas com algo de cósmicas, 
criaturas francas, cujo viver
é um voo
recortado de rasantes
mas seguro
seguro como o samurai que cutila
andorinhas que golpeiam seu próprio destino, 
sem qualquer flutuação de medo

vendo-as fluírem em seu voo torrente azul 
em alvinegras lâminas que fulminam o céu
e fulminam-me pois baixo minhas defesas
lembro num lapso do poeta perdido que cantava (pois afinal
todos os sinos que dobram, dobram amorosamente por ti):

"E quando vejo o mar
existe algo que diz
que a vida continua e
se entregar é uma bobagem"

Mascaro então meu rosto
com um lenço negro
à maneira dos sub-reptícios assassinos do medievo japonês
(pois teus pequeninos escandalizam-se em minha melancolia, Senhor)
e mergulho nas sombras
torno à simbiose que me consome, 
torno para consumi-la
com minha bolsa armada
pois há uma Missão da qual
eu havia olvidado,
surdo pelo horror pânico da urbe,
quando ela me matou

Os soldados regulares não aceitam
as missões suicidas
eis-me aqui, em toda a minha assimetria
com bolsos cheios de asas de andorinhas
afiadas no céu
seja a minha retaguarda
mas, ainda que não haja retaguarda ou
fruto qualquer na vide
(como naquele duro dia, Rei meu e Deus meu),
que importa quantas vezes tenho que morrer
para que viva o Teu nome?
E se não houver retorno,
"maior amor não há
do que dar alguém a vida
pelos seus amigos".

Hoje eu compreendo
porque fizeste-me navio sem âncoras,
e derrubaste todos os marcos antigos:
para que não fique ninguém para trás
a chorar-me, homem ou 
cão
desamparado 
de 
mim.

Viva para sempre o Teu nome!
08/11/2011


Deponho sobre a mesa o café e o empadão, 
uma das melhores combinações deste mundo tão chão,
tão faminto de guloseimas e dinheiro,
tão necessitado de fomes
para se (r)e(t)roalimentar.
Preciso fazer uma foto disso
ponho o livro do Rui junto (uma poesia que me leva de roldão aos dois únicos lugares que realmente existiram neste mundo chão, o Gólgota e o Helesponto) - e faço

Bem, o tempo avança e eu vou dar execução
aos projetos do momento, criar fotos de stock
e depois conferir os e-mails...

Decomponho o orbe em quadraturas,
como pequenas e geométricas fôrmas geográficas
que preencho com minha solidão quântica

Chego em Jotunheim, lar
dos Gigantes de Gelo e único local
onde encontrei exílio
depois do malôgro de minha última empresa

(às vezes me pego a pensar
o que teria acontecido
se tivéssemos conseguido explodir
todos aqueles nazistas, como nos contos de fada
ou nos filmes de ação que amo. Bem, escapei semivivo:
continuarei fazendo bombas.)

25/11/2011


Ciranda cirandinha
vejo as telhas empilhadas na loja de materiais de construção
tão bonitas
rebrilhando laranjas
as árvores que torram
neste cáustico primeiro dia de dezembro
no Rio de Janeiro
vamos todos cirandar
meu estresse hoje atingiu um pico
meu Deus, como sou um murmurador!
vamos dar a meia-volta
passo e cumprimento o Rubinho, que vive
com sua deficiência
ali, impossibilitado,
vendo a vida passar
e ele sempre tem um sorriso
pronto para mim
volta e meia vamos dar
daquela vez em que ele desapareceu
preocupei-me tanto
e orei a Ti
(já te pedi superpoderes, já pedi um GPS mental
para localizar e salvar
todo despedaçado da terra)
o anel que tu me deste
e hoje, como uma menininha de quatorze anos
contrariada pelos pais, pelo sistema,
pelo abandono do namorado ou pelo peso
das cobranças
queria ser eu a sumir
era vidro e se quebrou
tomar o ônibus Alcântara-Botafogo
e ir-me
ir-me ir-me ir-me ir-me ir-me ir-me
ir-me
se fosse homem o suficiente
se meu temor & tremor
não fosse esse tal
incoercível colosso
o amor que tu me tinhas
sei que ainda o tens, perfeito
em algum lugar do cosmo
invisível e próximo
precisodesesperadamentedeTi
01/12/2011


vinte e quatro de dezembro


há um homem que diariamente senta-se e chora naquela esquina
e há alguma fraqueza que me impede de alcançá-lo, como se
ele não quisesse ser alcançado
como se sua desesperança  fosse um ente poliândrico
que operasse impedimentos e muralhas em todas as dimensões
por onde tento penetrar


alguma coisa o assassinou e ele está ali sentado e chora


oh Senhor Jesus, só o  Senhor o pode
perdoe-me por incomodá-lo
mas não consigo cumprir o  meu devido


Você que amanhã nascerá, 
que nunca nasceu e é o ululante SEMPRE
venha hoje nos ajudar


ajude-me a cortar-lhe todas as linhas de suicídio
estenda-lhe em mim a Tua mão


e leva-nos Contigo


24/12/2011


Gripado, grogue carcaça, grogueados pensamentos, Grouxo Marx, Gauguin, Gaudí, Gandhi, Guilherme Tell de quem sou uma flecha e um pensamento frouxo o chefe quer ver-me estou farto de más notícias, não as traga, caixas de folhetos, o trabalho avança, Senhor, meu coração é um pano enxarcado de literaturas, quero uma passagem para Trapizomba ou encontrar em Paris as netas de André Breton, que existam e sejam belas e estejam dispostas a um colóquio lítero-afetivo,
estou todo links, links para informações que só eu suporto, hospedadas em nuvens dentro dos cinamomos de meu coração em minhas nuvens ardem as arquiteturas para engendrar uma máquina do tempo e resgatar e unir Jorge Luis Borges e Nicola Tesla, dois de exceção escrevo automaticamente às sete horas da manhã deste 12 de janeiro e agora me ocorreu que talvez as netas de Breton estejam velhas demais para mim

12/01/2012



Hoje venho à tua porta com uma foto de meu rosto:
o poeta é este ridículo, o que chora tinta de esferográfica, o que porta
uma cruz no meio da testa como cosmovisão fincada uma 
maçã como alvo uma lira
como álibi-coisa de coisificar/falsificar a realidade,
um ente verde de tão deslocado,  
um fantasmagórico, um trouxa, pé de couve troncha, uma alegoria do ar,
um palhaço buscando picadeiro e as Índias Ociptais,
insosso sonso, burro carregado de gonzos,
um gozo na empresa vã de tentar verbalizar-se,
uma fluição freada (com um sonoro tapa na cara) pelo dicionário,
um doce reles libre parangoléico 
otário.


Sempre um otário.

O poeta é o cara que não tem medo de mostrar sua inalienável cara de babaca, e tenta expandi-la (sua cara de tacho), para suplantar a irrisão-tosquidão do mundo.

(se publico aqui as geniais caras de babaca de Pound e sua cabeleira, Yeats e seus óculos e Drummond e sua cabeça de ovo me chamam de herege, e se pudessem rasgariam as páginas do blog, e me esbofeteariam a cara, o rosto, pois quem tem cara é cavalo)


O poeta é um coração de ouro (n)uma cara de babaca tentando salvar o mundo.

20/01/2012


Passo defronte ao asilo de idosos
é domingo de Carnaval
estou no ônibus e nossos olhares
cruzam-se
o veículo, inexorável, separa-me daquele olhar latente
mas é tarde: lateja-me
a lembrança
do asilo onde minha mãe trabalhava
asilo onde passei parte da infância
no bairro de Boa Viagem, em Niterói
onde aqueles velhos ricos
ou pais de filhos vazios e ricos
apertavam minhas bochechas
(lembro-me agora da senhora que fora cantora lírica,
e passava os dias todos os dias a cantar trechos
de óperas, e você não podia me explicar o que uma ópera, enfim, era)
e pousavam suas cansadas mãos em meus cabelos e
diziam seu filho é bonito e
você dizia é levado,
muito levado.

De todos, insofismavelmente lembro-me
do principal, aquele que morava
na suíte do terraço
e não era um idoso,
não de corpo

Por que ele está aqui? perguntei
depois de você levar-me para conhecê-lo, ainda nas escadas
e suas respostas, mãe, podiam
tão pouco
como se antíteses do muito que podia,
pode 
o seu coração

ele é louco

mas conversei com ele, mãe
e ele não parece louco e é legal

mas toma muitos remédios
a mãe dele é idosa e não quer ficar com ele

No mês seguinte
(ainda tenho em meu coração empedernido
a cicatriz fiel e silenciosa como um cão de estimação,
e este poema é um lustrá-la)
ao chegar com minha irmã disse-lhe logo
vou até lá em cima
ver o meu amigo

um amigo
adulto

...
você não vai poder...
seu amigo não está mais aqui.

Ele voltou pra casa?

... Ele morreu.

De uma hora pra outra? Morreu de quê?

Você sabe, eu te falei que ele era maluco, não foi?
Então, ele estava lá no terraço, e pulou 
lá de cima. Ele se matou.



Um Pássaro.



Maldito sejas, Satanás. 
Um dia, no Dia Eterno,
todas as Vinganças se concretizarão
contra ti.

E darás conta de cada pluma, de cada pequenino pássaro.

19/02/2012

Há um corvo
Dentro de minha bolsa de armas brancas do wing chun
Um corvo que era um papagaio palrador
Mas evoluiu, saltou de estado sem crisálida
E hoje tece árias feitas de silêncio e seu olhar soturno
Para uma singularíssima audiência

E bica e rasga em vão
Há um selo em mim, lembra?
Não posso morrer, idiota!
Seu maldito corvo idiota
Acha que nunca tentei?

Ontem as contei
Cinco meninas sorridentes
Como seu eu entrasse num cassino
E visse as mesas de variados jogos, todas
Com cadeiras vazias com meu nome gravado
Em letras douradas nelas
São lindas mas são como
A canção do corvo,
Ou o sol que me alumia:
Vãs.

Só estarei feliz em Cristo
Quando receber o comando
De reagrupar.

Mas há um selo em mim
Só tenho um braço
Mas fui requisitado, ele entregou
Uma carta à minha mãe
Numa tarde em que ela estava sentada na varanda com suas amigas e eu brincava de soldado no quintal
Ela pegou a velha farda de seu pai,
Mandou-me aprumar, vestiu-me
E me despediu


Eu estarei aqui

Mãe
O teu colo, mãe, foi o único lugar não-combatente que conheci
A dor ergue catedrais aqui, mãe
E tece uma rede de túneis por todo o mundo
E faz correr um seu sangue
Negro, uma seiva doce
Demais, repulsiva demais,
Ela quer assumir o controle
Deste corpo-de-um-só-braço
Cansado exaurido des(cons)truído
MAS HÁ UM SELO CRUCIFORME
TATUADO EM MEU BRAÇO COMBATENTE
Que repele o toque das prostitutas da dor,
Projéteis, cutelos
(acha que nunca tentei, mãe?)

São 7:20 da manhã do dia 23 de março
O sol brilha na grama e as pétalas de flores de acácia
Tatuam o chão de amarelo enquanto passo,
E há esperança nelas e em mim.
23/03/2012

desanquei com escarros de fuzil a porteira anil do canil de abril
(onde maio me prendera)
pois vi na viela uma migalha (um quadro, um poema de Dante Gabriel Rossetti ou de Gullar):

mas não era para mi
não para mi, capitano
06/05/2012

Eu sempre quis trabalhar num porto
Passo em frente ao porto do Rio de Janeiro
E penso em quem me conseguirá um emprego,
Um trampo no cais
Para fazer o que quer que seja,
Contanto que eu veja
Os guindastes içando os contêineres,
E sinta de perto e presto a craca
Dos navios, navios ainda os grandes corações deslizantes
Do que é Humano

De certa feita, um amigo disse-me
Que eles faziam lá cultos dentro de um contêiner
(os funcionários cristãos, e digo, os cristãos funcionais)

Vejo as locomotivas que trazem o minério de ferro
E lembro de um poema de Allen Ginsberg, de girassóis e
Fuligens
Que cobrem-nos a nós, humanos, que me
Cobrem como um vestido
De alcatrão e cartazes
Do suprematismo russo,
E embargam minha alma de signos

E tantas máquinas grandes & servis,
Trabalho trabalho e trabalho tanto que
Me impeça de refletir sobre minhas dores
Poemorfadas, poematomizadas, trabalho tanto
Que pulverize meu olor dolorido, pois o cansaço
É um grande barato, um narcótico
Simplificador da vida,
Um estado de pré-esquecimento, a desejada
gravidez de um escape, de puramente
Chegar em casa e deitar e esquecer.

Olho a barra, o mar. Aguentaria trabalhar embarcado?
Esta pergunta tem anos em mim, e reverbera em meu
Silêncio.

Sim, é estranho, mas vejo e sinto e porto
Em mim a velha flama portuguesa,
A espada e o sextante.
Uma imensidão melancólica de ser.
17/05/2012


19/05/2012


O poeta escreve
Porque não pode voar,
Fato-anedota simplório que
Qualquer criança
Lhe desnuda o segredo

O poeta é o próprio antropomorfizado azul,
Azul fract(u)al,
Feito o azul do céu, pan-oferto
Azul-página-de-imersão
Ou difração
Azul, eis tua palavra mágica:
                                            - aberto –

Azul de mar,
De profundis sulfúricas sonatas
Para um Índico que nunca conheci,
Mas sempre aberto à minha janela, braços, goela

Soul ser Atlântico, sulamericano,
Sincronizo meus arrotos com a fala do déspota,
E ele discursa de lá e eu arroto daqui
E falamos a mesma língua
E faço poesia até disso, então


Vai Poema,
Criatura-de-olhos-de-infância-e-ambulância
Apregoar o que lhe foi pregado
Sobre e além dos que celebram solstícios e equinócios
Para que o Poema-teu-Pai
Abra portas nas trevas
Para que a LUZ
Exploda em ondas,
Que suas sondas sejam lançadas,
Com cornucópias cheias
Das flores de sangue do Resgate.


Quanto a ti, eu, mim, Ossian, qualquer sindicalizado
Na confraria do verso
Afie sua pena no Segredo, poeta:
A boca de satanás,
Sua farta verve,
É a Caixa de Pandora
E dali
Todo o podre ferve

2 balas de prata, deitas
Ao peito da Caixa:
Nada alcanças.
O Belo apenas
É impotente para arrasar demônios,
Elfos e fadas
Só pelo nome de Cristo
Tudo
Tudo (é só) pelo nome de Cristo.

(O Belo é só uma das muitas impotências
Com que os homens tentam, com que os homens morrem.)

A Poesia é a telúrica força
(mãe-do-Belo-e-irmã-da-Morte)
Que os homens aprisionaram com cordas,
Limitaram com palavras,
Diluíram em si mesmos
Como se ela fosse comportável neles
E não o contrário...

25/06/2012

O estranhamento engole o que é seu,
Kraken, Equidna, duques do Inferno listados por Cipriano o são:
no cybercafé, na mesa em forma de fim,
jogos, jogos, um Universo com tara por jogos,
o pecado é aquele negão de cartola e tem três cartas na mão
e uma quarta na manga,
quarenta, mil:
o pecado tem sempre mais
para te matar. e daí
você (re)pensa, qual Jonas rebelado,
um Jonas do XXI século,
Abelardo sem Heloísa - ou cheio delas,
preso nas entranhas do estranhamento,
no canal retal do pós-moderno,
"eu não sei mais o que é certo,
mas sei que está tudo errado."
Dãããã. Dããã, valentão.  ãããããã. ~~~~~~~~.
E cisma, e teima, e destoa,
destoa em tons de cinza, coloridos na marra no Corel Draw,
Photoshop, Paint
num protótipo tão artisticamente bem executado
e uma fé esfarelofeita,
operando numa frequência que não frequenta
paz de espírito alguma,
pois erigida sobre a rebelião,
as circunvoluções do cão que lhe lança chupetas
- mágicas chupetas
que lhe encantam, pois sei,  de lá fugi já despedaçado,
é (de)veras mui rico o empório de Mamon.

E você crê que monges católicos vão lhe ajudar a encontrar
(mas ninguém lhe esclareceu sobre o objeto da busca, Cipriano!).
Sim, eles falam do Deus que tu pensas pai
mas que lhes é só um tio,
um tio distante de quem a família fala tão bem.
Um tio distante demais
para que os sobrinhos surdos possam ouvir e
compreender a sua voz.
Homens presos por pactos de honra e vento
a uma instituição, uma instituição!,
mas se não lhe  importa a sã doutrina e queres morrer,
antes como Buda que como padre, meu garotinho,
morra antes como o Buda que,
por desconhecer a  Verdade, não blasfemou ao  caricaturá-la.

Quanto a mim, eu que no empório de Mamon era o gato que
dormia sobre a saca de ração,
eu que morria em tudo isso que te mata,
ouso dizer:

eu não ouso dizer mais nada.

28/08/2012

Acordei hoje para ti, Poema vário
em trincas & ranhuras
infiltro-me por uma de suas rachaduras,
aracno adentro-te, mesmerizante construto

Adentro a onomatosfera
em busca de sons
de tudo que ainda não é ou está
coisificado

cretinizo as palavras, mato sua poesia
que me prostitui
para depois, como um cansado paramédico
tentar ressuscitá-las

deito desconstruções nobiliárquicas
à tua mobília, Poema,
destruo tua honra

estou na cama do CTI, os aparelhos
a mim ligados apitam com redobrada fúria,
como uma criancinha que numa piscina
perde o fôlego, como algo
na iminência pré-poiética de SILENCIAR
há uma queda substancial
em todos os indicadores de vida
mas não termina a vida, Senhor,
nãoterminaeternidade

saio do coma e para fora e sou agora
o Conde de Halifax, imbuído em ceroulas
e o inferno
é a boate que nunca fecha,
ali na esquina

ora vem, Senhor! Acenda a fornalha
contra tudo o que é chão
acelere a chama 'té que a entropia
seja uma esmagada serpente

(a dor da Queda ainda dói tão intensamente,
dói tão amarga, que só se vive de esquecê-la
e a Literatura, que vive de lembrá-la, é um de seus
mais profundos esquecimentos)

25/09/2012



De uma janela, numa cidade chuvosa, após ler Baudrillard.
Poema-Catarse, estamos aqui e somos apenas nós, Nostradamus e o corcunda da velha Notre Dame, psicopárias de prata numa sociedade de limalha de ferro, múmias nuas ex-postas em meio a máscaras de máscaras de máscaras de máscaras ao cubo, ao infinito se o homem o pudesse,
e eu desejo saber: em minha vida,
o que é fundamentalmente simulacro? E o que não é?
A Poesia, caso fosse um simulacro, seria simulacro
- de quê?

(num dia triste, pensei que o ato poético,
o aprisionar palavras num poema, era um
museificá-las, celebrar seu simulacro semântico).

Quem se importa com a condição poiética quando
cada homem em nós é apenas um simulacro,
um falseamento ou uma realização provisória,
aguardando a restituição, a REALização em Cristo?
A Esperança de Moltmann e sua teologia, contempla
a funeralização de todo simulacro, o despir das múmias antes da ressurreição?
Que importa? "Faça seu serviço e morra", disse Paul Washer.
O resto é silêncio, supressão de Hamlets.
16/10/2012



Acréscimo em vídeo, dia 18/11/2012



vago no vazio

de um mundo lotado;

temo-o pois não

lhe pertenço,

desgarrado;



invejo-o pois pudera

ser também vento

e dissipar-me.


Acréscimo em fotos e texto, 29/11/2012


Passo meus dias a procurar poemas como um policial exausto caça sequestradores de crianças sou antologista compilo devaneios e dores andarilho de desertos perdido em milhas e milhas de solidão impressa é meu serviço não-remunerado sou um voluntário do verso da maldição alheia que é a Poesia sou o ciber-coveiro que recolhe restos mortais para perpetuar o funeral que cada poema é não me inveje não queira me conhecer sou  Jorge Luis Borges Salomão Ibn Gabirol Pew o Cego pirata Sancho Pança Ras Al Ghul ou o genro do Profeta de todo o grande islã meu nome é uma das fantasias de meu pai minhas ações são um simulacro perfeito das ações de um jovem morto aos 14 anos corpo cuja sombra assumiu o seu lugar sem que  Deus protestasse existo inexisto com a mesma freqüência de uma partícula quanta ou da Realidade perpasso ultrapassando os demais cristãos não luto apenas contra demônios e eus combato num esgoto mais profundo  minha inimiga é a Realidade inteira o multiverso entrópico caído sou um  terrorista mascarado de pacato que deseja assassiná-la durante seu glorioso Desfile seu dionisíaco Baile e estou a serviço de Cristo

(ou Eulália, bêbada na Rua d'Ouro, esperando os operários
do estaleiro saírem,  iluminados por seu soldo.)

14/12/2012





Acréscimo de 3 imagens ab-stratas e um abstrato amarelo, 26/12/12


Poema que goteja,
bandeja de dor sobeja,
soberba
soberba sobremaneira 
soberba 
soberbia
sensaboria
sATÃ e aDÃO a boEmia
inutilizaram a Realidade,
duas crianças caídas que destruíram
os brinquedos do parquinho,
cupins de playground,
cupins das criações de Deus,
castores do caos, anarquitetos
castradores de si próprios,
automutiladores,
dervixes suicidas rodopiando
sobre o ouro do fio da faca
e sua navalha
deitaram tudo no chão do nonsense

escrevo(-lhe) para dizer isso,
das diversas maneiras formas apenas
sempre incansavelmente
isso, em tudo que escrevo,
sou o mais reincidente dos homens,
sub-homem que goteja
humores de desordem
toxicidades,
risco biológico,
biohazard, go honey, go!


poema, meu poema-Godot
poema-Godot de que
Estragon, Vladimir e Sammis
aguardam a chegada
poema-nucleotídeo
donde, prestos, extrairemos
o DNA
para replicar as antigas bestas
dos poemas épicos
bestas exterminadoras
a serem aniquiladas
pela besta exterminadora o homem
e seus poemas-Godot
sentimentos-Godot, dúvidas,
maquinários,
dias-Godot

02/02/2013



Acréscimo em foto/intervenção corporal número 2: "E s p a l h a f a t o"
03/02/2013


A escuridão gesta estrelas enquanto vocês levam as crianças para assistirem o novo filme. A escuridão rasga estradas nas coisas, nas pessoas, levando tudo em direção ao nada pavimentado. Os que perderam a fé seguirão. Crianças queimam no saguão - quem se importa? A dor corroeu nossa glândula empática, não temos piedade sequer de nós mesmos, rinocerontes rosáceos em vias de extinção.
08/03/2013



É tudo muito simples, quem precisa de poesia para dizê-lo? Eu simplesmente era feliz quando não sabia todas essas dores, dores externas aos corpos, teológicas e metafísicas. Catava ferro-velho revirando os lixões, no tempo em que não havia coleta aqui nos bairros e o cão Bugui seguia Renato por onde fôssemos. Era um bom cão, hoje reconheço. Nunca latia, nunca rosnava, não oferecia demonstrações de carinho para com humanos, sequer seu dono. Mas era uma sombra, era a fidelidade inevitável de uma sombra. Crescemos e Renato morreu de cirrose de cachaça da praga de se ter 24 anos. Mas éramos felizes. Ninguém precisa da poesia para dizê-lo. Essas coisas da memória. As pessoas precisam de armas que matem o tempo, matem demônios. Deus o sabe.
14/03/2013


Poema, bom dia meu amigo.
Bom dia meu umbigo, dia.

Vamos hoje ouvir músicas de Mariah Carey e lembrar de todas as mulheres que perdemos, poemas de alegria e dor inter-
romp-
idos?

Há! Sabia que você diria isso, canalha. Canalhorda, pois vamos então inventar palavras?
Veja acima, dor e alegria, peripatéticas
irmãzinhas. Poderíamos matutar uma palavra
que as unisse, que desse
já de saída a clara ideia da dualidade
dessas duas moças. Lembra de Janus, o deus bifronte dos romanos?
Temos o velho yin/yang do Tao,
ou aquele demônio-orixá seis meses macho, seis meses fêmea
(trabalho maldito, o lixo do lixo de todos os demônios!)
mas somos cristãos, hum, somos crentinhos, esperam de nós pacatitudes tácitas
e para além disso não é a este conceito
que quero remeter meterer metier metiere metástase
lexicometástase um bom nome de livro mas a nossa palavra é
)) Doralegria!!! (( Simplória demais. Bem... Alegror?... Doraleg?
Ora, então dê você um palpite, lexicoequino!
Calhou deu lembrar agora daquele jogo de nossos fliperamas,
Guilty Gear X; quando as lutas iam iniciar-se
o narrador dizia: “Heaven/Hell – Fight!”
Céu/Inferno – Lutem!
Um joguinho de fliperama bradando com fúria que a vida é afinal isso,
embate pânico-performático entre o céu e o inferno, um mar de sopapos, canavial de pancadas, um denso porradal de pesadelo,
com o perdão da pa(nc)lavra.

dor e alegria e dor e alegria... vamos lá, mudinho, dor e alegria, bóra, dê aê um palpite...
Bipolaridade? Bem, obrigado por ao menos nortear um novo rumo para nossa reflexão.
Mas bipolaridade é frescurite de mente, e eu falo de fatos concretos,
coisas boas e ruins se interpenetrando, (const)ruindo a vida.

O rato roeu a roupa do rei de Roma, que no tempo era Papa.
O rato é feliz?
As roupas eram coloridas com pigmentos que levavam chumbo:
o rato morrerá de câncer ou alguma doença neurodegenerativa.
E o rei?
O rei posto nu pelo rato, é um rei alegrado?
Um rei alegradecido ao rato anarquista,
um Papa (l)ex-posto em sua anticristianicidade lexicoprophética,
pelado do peso pontifício da Máscara?
Rato quixoterrorista, desnudando a pelancosidade (pelancolia) do romulano & remulano (& lupino?) bei
apressamos poéticos a volta do verdadeiro Rei
 mas não conseguimos a nossa palavra.
Era o Kid Abelha quem cantava: só mais uma vez, amanhã talvez? Acho que não. De toda forma, amanhã continuamos nossa anarquizo$79789hcDshcdSa%_-=/?jfrplbyGYb
                                                                                 hv\|h(8t#'|&Njhj

30/04/2013



Poema, tamborilando hoje sobre o livro de contos
que gosto de estar gestando, quis tecer uma fábula,
uma a mais lenda euro-urbana, sobre o bom judeu russo
Salomon ibn Gerirol, cujo bom nome inventei para presentear o tal conto

Na minha lenda, Gerirol-o-bom-nome
abandonou um salão de barbearia uma viuvez de 35 anos um gato egípcio
casou-se com a Ondina Rainha do rio Dnieper
e viveu feliz sua vida
de pseudo-tritão.

Mas declinei: até as crianças russas, que assistem Pokémon
e podem agora crer em Deus e sonham crescer e ser a América,
sabem que não há mais ondinas no Dnieper,
esmagadas que foram pela Revolução Bolchevique,
envenenadas pela Coca-Cola.

 20/05/2013


Poema, criei um Objeto para ti, uma instalação conscrita ao chão de minha sala, que esculpe/objetaliza o que as palavras desreferem em tua/minha impotência de (re)ferir: tua pseudo-infinitude trágica, tua puls(aç)ão virulenta e babélica brutalidade... mas que palavras usar, se esculpo para não dizer?  Uma parte de você agora existe em forma de objeto.
Sofro de epistaxe crônica, que é o sangramento nasal espontâneo. Sempre sangue escorre de meu nariz ao sentir excessivo calor, ao fazer grandessíssimo esforço, ao estar simplesmente parado inerte estacionário redundante com um pé no pescoço da vida.
Você é um tipo de sangue que eu deito fora, uma forma transepistemológica, ekstasilogofórmica, signifária de minha epistaxe. Preciso de outras plataformas, veículos, canais - outros lenços para sorver este meu sangue que estanca para tornar a carga, Você, meu Poema em metástase... ruborize ao revés com seu azul de esferográfica ou de fita de máquina datilográfica as epistemes literárias. Expluda nossos pacotes de cacos, já que as palavras têm ficado facas, ficado ocas.

Machina Signifária











"Machina Signifária" - Objeto. Com este, integro artes plásticas à metapoética desta obra, sempre em progresso, e em avanço 'antropofágico' sobre novas plataformas, mídias, canais. Pois a poesia é mais do que ensinam na escola e na esquina. Note que não trata-se aqui de objeto em louvor ou em referência ao Poema, mas de 'trecho', 'acréscimo', doravante indissociável (ainda que possua valor autônomo) parte do corpus do Poema.
        Acréscimo em Objeto, 22/05/2013


No sonho desta noite eu era um rato estrábico descendo em perpendicular do céu de prata de alguma maneira surfando nas gotículas da chuva até que um raio

05/06/2013


Há um saara nas coisas, estrelas compondo montaréus de pó e cascalho. Há antanhos nas cuecas do amanhã, sicários nas igrejas, despedaçados nas luas de Saturno. Há saturnos numa sala de aula do pré-escolar, dezenas deles, cada olhinho de cada criança. Há crianças na morte, anciãos explodindo de dentro de ventres. Há vazios nas pedras, dentro dos miolos delas. Eu só queria encostar-me a um canto, e que as coisas os saaras os vazios as pedras ventres saturnos
desistissem, desistissem de mi.
18/06/2013


Hoje ao sair do trabalho eu pensava, poema:
Já que não tenho ninguém, vou criar vidas
com o poder de minhas palavras, como
um judeu cabalista pega barro virgem e cria um Golem

Irmãos eu tenho:
Criarei parceiros de vadiagem:
Mulheristas que me consigam namoradas:
Serei Salomão:
Mil esposas e decisões sábias:
Até erro em contrário
que me devolva a humanidade:
Esse status de sujidade tácita.

Vou passar os baalins à fio de espada
gosto desta expressão, a fio de espada
gosto também da palavra baalins
detesto-as e não sei se terei coragem
mas vou passá-los por causa dos sonetos deles
pois não rimam em seus sonetos

(me perdoe pelo nonsense, um post de um blog
que li agora inspirou-me um verso:

Lá fora está frio:
o inimigo entrou na igreja.
Sentou-se aquecido.)

Nem sei o que digo, na poesia não tenho compromisso com nada.

)(Li dezessete vezes o Eclesiastes, oito vezes você)(



Se você nunca repartiu um bolo de aniversário,
um alimento qualquer, entre você e ninguém, você não sabe o que é a solidão, e tem sido enganado por seu próprio coração cobarde.

Umas duas vezes sentei-me no chão de minha casa vazia,
parti o alimento em quatro, esse para mim,
esse para o Senhor, Jesus
e esse para o vazio e esse para ninguém.

Sim, dramático e triste.
É sempre triste, mesmo nas segundas vezes.
Nunca prezei aniversários: isso causou-me problemas
com mulheres da família ou conseguidas, pois todas prezam datas,
as roupinhas de boneca com que vestimos as paredes da prisão-o-Tempo.

E partir um bolo de aniversário entre amigos imaginários
é de certa forma brincar de bonecas
mas Jesus é real e não aprecia que a dor do deserto
chegue a este extremo. Mas ela chega,
e você sabe que os poetas pagam tributo dobrado.


Sento-me só no campo de solitude do Horto Botânico de Niterói
e enquanto como os quitutes comprados
na lojinha de doces & salgados aqui ao lado,
reflito no nosso único assunto:

A Entropia é o braço físico da Queda,
seu órgão monaural - avançando
em sua fúria devoradora,
deflorando lenta as inocências

Agora mesmo enquanto como este empadão de frango,
sou deflorado, juntamente com a grama, a terra...
Juntamente com os elétrons da corrente elétrica que permitem
que você leia este poema
enquanto a Entropia,
o falo da Queda,
também te deflora.

13/07/2013



poema feito de estanho
o seu poeta: madeira de demolição

a frase do grafite
“você é um craque na vida
ou a sua vida é um crack?”
os mortos na Bovespa,
os muito vivos da Bovespa

a paz da urbe é castelo invisível
desabado sobre os enkastelados

orquídeas e ouropéis deste caleidoscópio
morte-vida-morte-e-vida
nunca  s e v e r  i n a
pois severina a essas horas
dorme ou forrozeia

há traçados de pó
sobre salvas de prata,
etiquetas de civilidade
no capão mais improvável
na periferia & sub(-)solos desta urbe
desmazelada

João Batista é um dos mortos na chacina

planeta Terra antes chamar-se
planeta Tramontina
jamais vistos punhais tantos,
facas em borbotões assim

o planeta inteiro
é uma linha de montagem
e um grande campo de testes:
isso é que se chama Queda?

Down, down, Black Hawk down
Houston, i have a problem
Cristo, resolva-me este caos

a Escuridão gesta estrelas
enquanto a Luz, buraco-negro, as devora
sim, há algo de ergonoontoloteologicamente errado aqui,
mas não aqui no pó e lixo de meu verso,  minha cisma,
senão no próprio status do Cosmos


Houston, tende piedade de nós...

28/07/2013


O Inverno, como um Outono solipso, desfolha meus passos

no quiosque na praia Jon Bon Jovi diz que
eu devo acreditar no amor
ainda que eros e feito de caquinhos espirituais
de pó

escavo a areia da praia
sempre e sempre,
buscando encontrar o Dia Primeiro, o Dia Um

                          quando a onda primeira

                                              quebrou na praia inaugural

escavo o oxigênio que respiro e furto e onde movo-me
em busca de Deus

violento as palavras quando sozinho em minha sala, longe do papel
violento-as enquanto isso não é promulgado crime
e não tomam-me a caneta ou a (c)alma

penso no filme Cloud Atlas
reencarnações não existem,
mas a humanidade é repetitiva
há uma sequência finita de padrões intercambiáveis,
padrões filtráveis pelos demônios
(que usam tal conhecimento contra nós) e
filtráveis pelos homens sábios, ou ao menos os hábeis
e isso salomonicamente é angústia,
aumentar em conhecimento é levar o golpe da onda nas costas,
como um moleque (des)prevenido
que inaugura a Vida ou a Queda a olhar para a mamãe
com seu olhar de choro sufocado
- é comer areia e sorver uma água salgada demais
como quem sufoca de angústia
em pleno oceano de ar,
assim como ocorre a qualquer poeta.

12/08/2013


Acréscimo de  12/08/2013, Segunda Parte

Estou na praia solitário
os olhares denunciam os gays, eles secam-me
estou feio, gordo, melhor, barrigudo
mas isso não parece perturbá-los,
secam todo homem solitário que veem

Estranho e forte demônio, este o da homosexualidade.
Como deve ser isso, como deve ser
ser um demônio?
Perdoe-me por propor questões duras à tua já angustiada cosmopercepção
mas que coisa estranha pode ser
esse status de inimigo da Vida,
de Deus?
Isso também é assustador  para mim.
Irmane-me irmão, mas não posso
furtar-me de pensar em todas as coisas pensáveis,
e sei quando e onde peco,
e não tenha-me por inocente.

O trânsito segue intenso,
o mundo segue intenso alguns
quilômetros daqui, na (c)idade grande
e eu aqui na areia
a aguardar a vinda de um Deus
que me apontará o quanto tenho
sido inútil e o quanto sofri
os golpes que deveria ter assimilado
como soldado.
E me abraçará forte como a um pródigo
e colocará uma flor branca de hibisco
em minha orelha direita
e dirá de PAZ, o seu Quarto Nome.

Vou para o mar, não há ondas hoje e sabes
como preciso de ondas
pois não uso droga alguma e não tenho
uma mulher para amar
e as ondas me entorpecem me
felicitornam felicimpossam
deito-me a boiar, e de repente
uma formação estranha nas nuvens,
como um ideograma chinês,
mas que sei eu de ideogramas? E penso
que é o Senhor tentando falar com algum chinês
nesta praia semivazia de agosto.

Balzac,Hugo, Stendhal,
vá para o inferno toda a Literatura
eu queria ter uma namorada oriental
e poder desmaiá-la de tanto beijá-la,
desmaiá-la de tantos beijos,
e vê-la sorrir e cerrar ainda mais
seus olhos que Deus cerrou
e escrever poemas sobre flores de lótus e ela.

E de repente, insuspeito, o dono do quiosque
me ressuscita
um prazer antigo: folhear revistas de surf
Lembro de Itacoatiara e Wellington e o irmão Raezi
e o período mais feliz de minha vida

meu Deus, eu amo o mar

obrigado por esse volume de amor que o mar
proporciona-me despender
esse amor essa onda tão difícil

revistas de mulheres nuas, revistas de religião
todas são lixo perto de revistas de surf,
de revistas de VIDA
não sou consumista, jamais consumi
essas marcas de surfwear
mas como amo seus anúncios, seus cavaleiros
galopando a vida líquida-móbil de Tuas ondas,
Deus meu

meu Deus se eu pudesse queimar toda essa poesia medíocre que já escrevi
eu queimaria
se pudesse entrar por essas torneiras donde escorre o tempo
como um verme, como um parasita que
o sugasse até secá-lo
eu o secaria
pois sei que sobre o cadáver do tempo

eu O veria, Senhor

Acréscimo de  12/08/2013 (Segunda Parte)



Leio um livro sobre a Guerra da Secessão
e o rebeldheróirevolucionárioH! John Brown
que libertava escravos e atacou o arsenal
para roubar armas para combater & explodir os cães de sua raça ariana

Ponho os fones nos ouvidos moucos
vasculho as pastas de arquivos
os mesmos velhos rocks,
ou músicas tristes românticas mundanas
ou louvores triunfalistas,
louvores triunfalistas como de loucos celebrando um Reich


Naquele dia, na batalha sobre o Rio Judas,
quando lhe pedi e gritei tão alto o Seu nome silencioso
e implorei para que implodisse a ponte
para salvação dos demais e para garantir
que o Adversário não se apoderasse
dos códigos tatuados em meu corpo

naquele dia em que eu estava disposto a sacrificar-me
e era isso tudo o que eu queria e contava contigo e fechei
os olhos enquanto corria sob o vespeiro dos disparos e
gritei para que meus pulmões explodissem:

- General! Agora! Golpeie! Golpeie!!!


Por que me poupaste, Senhor? 

Acréscimo de 27/10/2013


Assisto ao filme O Que É Isso, Companheiro?
Imagine, roubar um banco e ainda ter um motivo ideológico para isso
é como matar dois coelhos com uma única Colt
e aí você sequestra o embaixador americano,
e vai além da ficção & da realidade, rumo ao terceiro
estado de todas as coisas: você
mata o embaixador americano,
& esmaga quatro coelhos com uma única Colt
e então você empunha um martelo & destrói a Colt, e são
cinco coelhos

09/11/2013


Num anteontem desses falei sobre a transcendência de Ficção e Realidade
rumo a outro estado, o estado Humano propriamente dito,
ou onde o Homem se move, seu Campo de Fluição.

Pois o que é Realidade,
se não posso medir as coisas com ‘real’ valia?
E o que é Sonho,
se a imaginação, o demônio que nos embala,
é tão amargamente fustigada pelo Fato?

‘Kraken, Equidna,
os demônios listados
por Cipriano o São’

a repetição,
o disparo o enfado

enforquem as bruxas
e pereça o mundo

enforquem-nas
e fiquem apenas os homens,

a repetição o disparo
o enfado

12/11/2013



Poema, minha nau nutriz
e África sorvente,
meu alimento e minha fome,
adquiri estas armas, sei que aborrecem a Cristo
mas hoje abandono meu quarto de pensão,
meu emprego na Facit
- minha história funde-se
com a de meu pai, veja isso, Lulu
como a minha própria se fundirá com a de minha neta
que jamais nasceu -
voo para fora, esfaqueando o Tempo
a reaver as memórias que a dor hackeou

Escorro para a área portuária,
mascaro-me, imiscuo-me
- olhe, Lulu, veja como

a escuridão unifica as castas
agrega os egressos da Catástrofe
para depois re-esmagá-los:
eis o mundo a Satanás sujeito

pois eu tenho 14 + 14 tiros para ele
e olhos que miram o grande satanás ocidental
e esta noite muito muito pouco amor

mas o suficiente para que eu não dispare,
o suficiente para que eu desperte de meu sonho mau

sou um poeta, uma tartaruga de imaginações,
um guepardo de Oneiros sendo Holmes ou Poirot
no cais do porto de Niterói, na calçada dos bares
atrás da Polícia Federal, aquele tão incendiável edifício...

18/11/2013


Estou indo para o trabalho, neste domingo vazio madrugado
meninas malencapadas em suas nanosaias
passam, gritam, trêbadas
Eu Sou adão, Todas Elas eva: não
nos conhecemos, mas, entes pós-Éden, co-navegamos o vazio:
o sol que surge é nosso Caronte,
nosso barqueiro infernal e cego
que nos (trans)porta para nada.

Retorne meu Cristo, termine com este sol antiterno,
esta longa dor de cosmo.

15/12/2013


Volto à favelinha da Beira Rio,
para lembrar com saudade das palavras de Papita,
o Mudinho: “Catá curpíu, catá curpíu”,
catar alumínio e cobre pelos lixões.

Vamos, Renato, Bugui, Papita, Guinaldo
vamos que o mundo é passos apenas,
é apenas a somatória ora imberbe de nossos passos.
E na Sorbonne no Vaticano nos livros de meu pai ou no lixo intimorato
não há sentido, não há edifício algum
no lugar onde havia edifício,
pois o construto, Adão não o demoliu?

Não temos armas e somos livres:
Vamos moleques cardinais, piratear escombros,
aguardando a volta arquitetural de Cristo.

(Renato e seu cão Bugui estão mortos, Papita
foi embora para Resende ou Cordeiro
ou algum desses lugares do interior do Rio para onde
os homens vão embora de nós
- restou apenas a inadequação de um impedido de partir ou morrer,
desde sempre, grande sempre, inadequação grande tal
que foi ao céu constranger o coração de um Rei

27/12/2013

Häagen-Dazs, Planeta Mongo, Motos Cagiva
e Prostitutas-Pop
poptutas mogivas parangolizando
a cama do Hotel, xerocopiado Hilton
geomalocado em Foz do Iguaçu, esta iguana sem braços
neste poema surrealista

Vamos sair daqui rapazes, para o outro lado da cidade codificante
vadios pela polis purulenta  em vertigo,
a uma pizzaria pronta-entrega
onde os sabores das pizzas levam nomes de pensadores
ou de intelectuais brancos se você preferir, azedos como queijos
e há a pizza Montesquieu, de queijos da Borgonha,
tomilho e azeite, ou a surpreendente
pizza Umberto Eco de queijo cottage, escargots,
trufas tailandesas e mostarda vermelha.

(Havia um americano que lamuriava-se para
a atendente, “esta é a única que possui escargots?”
“Sim senhor.” “Droga, maldito queijo cottage,
deixarei de comer este Umberto Eco por sua causa.”
Na hora eu estava lambuzado de Giordano Bruno,
mas depois achei graça, e pensava em como maldições
e orações são rezadas nas bocas americanas,
com facilidade, fluidez, como se feitas, maldições e orações,
de nonsense e azeite, talvez como na boca de nenhum povo
que eu conheça,
ou quem sabe na dos italianos de Eco, os que queimaram o Bruno?
Apenas pizzas numa cidade cheia de muçulmanos
Cagivas e traficantes de arte sacra, como nós.

22/01/2014


dong dong ong
     tic tic ic
  lappin'go
arquiteturas do céu atravessadas

Vassily Kandisnky e seus vassalos:
                                       solassav,
                                       vossalas
                                             solavass
                                                          s
                     sem - i - o´tica
Saussures, flamboyants,
carvões de Goya
na parede da pá:
papayas
madur'antes do tempo
madur'após tempo
madur'em tempo

)Skid Row: Medicine Jar(
GRITE, SEBASTIAN

MADURE MATURE AS FRUTilas do tempo
faça a poda do parreiral
apare as eiras
epare as airas
apere as ieras,
as iaras

Kandahar, Kandara,
Katar Hol, Kardacianos,
Kamikazes em foguetes Katyusha
de chocolate & mentol

Kankikorkovas
kordatas koisas kentes
karkomendo as kalotas polares

kursos kolares kesistindo kom karmas HK MP5,
Heckler & Koch Maschinenpistole Fünf
dir-se-ia no alemão de Kant ou de algum dos excelentcrassos
von Humboldt's

frigidandis práticas de nonsense, hermenáuticas, cegosutras

21/02/2014



30/03/2014, de um tempo que nunca acaba



Não somos o que esperam de nós:
somos, antes, o que jaz após:
nós, nós, nós, nós

Perdoa-me Senhor
por nesse dia
por nesse santo dia,
perdoa-me
sou um serviçal das bordas
de Seu exército,
um rubicundo cão
sujo de cismares
um marujo de não-mares
um mareado obreiro
um Judas micro, um mini, um punhal pequenino
rasgando o Rei.

meu nome é soldados mortos
meu nome é noites febris de amarração
meu nome é um terremoto no Chile,
uma manifestação aos pés do Peloponeso,
uma crise econômica,
Esparta e Atenas,
Berlim e Moscou, Roma e Cartago
estrelas e quasares,
marolas, maremotos, camarões.

um homenzinho riste
pintado de paz

das cores olorosas dessa PAZ imarcescível.

03/05/2014


Filtro as incandescências do mel,
trago pitangas maduras e álcool,
não, não será um doce licor,
mas uma lâmpada incendiária,
um brinde ao camarada Aladin Molotov.

O Sistema precisa de advogados, senhor Ravenapril,
eles são sumamente necessários, como os Papas.
O Sistema também precisa de um túmulo
- claro, é assaz necessário.
Tenho, confesso, prazer em cavá-lo,
pois não é mui maior a recompensa
pelos trabalhos braçais?

Sou vosso serviçal, senhor Ravenapril. 

16/05/2014

Estávamos todos lá,
com Ele fincados
naquela rude cruz,
e agora ressuscitados.

O exército das palavras marchou
sobre as débeis tulipas de silêncio

palavras múmias desenfaixadas
abraçando a noite, colorindo
a treva com trevas


Há trabalho para cinco ou mais cabeças.

Pergunte ao Sol
quantas luas ainda far-se-ão necessárias

         uantas mas / vantas vas

miser
         a     m
         b            i
          i               s
          l                  e
          i                     r
         d                        a
         a                            b
         d                                i
         e            memo            l
                        rabili                  i
                        aoun                     a

peças de renda
Crist@l-demoníacas
peças de renda & lingerie
palavras co(nge)ladas
autobots, descontruptdecept
cons
bitcoins, moed@s fakes
quando você chegar hoje da escola mamãe vai costurar o rasgo em sua cabeça



A Realidade, essa gestação indébita
há uma ecosfera, uma variada florifauna habitando
o rei dos animais, a superação (do) animal.
O palhaço, o clown, é tantas e tantas vezes
a mais triste das pessoas,
mas que importa? Ei-lo, Zelador da Criação.


Mas Deus propõe e dispõe das cores, cores são luzes
ou formas de absorvê-las/refleti-las
e não é o Cosmo um jogo de luzes,
um jogo da Luz?

15/06/2014


dois mil cento e seis
deixamos os termonucleares tamisas
rumo a uma Túnis sub tegmini fagi,
de túneis à so(m)bra, de mãos dadas
(suas mãos com aquele labirintarabesco tatuado
de rena)
mãos dadas no escaldo, na ignição
estática que é o deserto, lagartixas
anis, estranha cor
para um réptil do deserto,
pensei enquanto queimávamos.

  
Um rasgo na sincronicidade,
   um debelar, um
desarraigamento do Lumen,
do estar diante ao Trino
um toque na anti-fruta sita no centro
do Jardim da Vida.

Um salve a Eva,
eis morto o Homem e sua descendência,

uma bonequinha tugida de barro feita dum
caquinho tenro de barro,
sempre de barro.

O homem é só um número,
um pulverizado no macro,
num Universo incompossível consigo.

Dias diluídos no desmazelo,
um futuro de coisas a não conseguir,
desdeslumbramentos.

Alguém um dia em algum lu(g)ar
trançou Tempo & Tragédia,

ddias e ddores

26/06/2014



“Kraken, Equidna,
os paspalhos listados por Cipriano o São”
“down, down,
Black Hawk down”
“Houston”, eu tenho um arcano,
um número forte da fila daqueles
que imploram para serem evacuados
deste caos

“Quem se importa,
quem se importa, Senhor?”

a frase capital de meu livro
da Guerra de Inverno
a frase basilar do status Queda,

perdoe-me Poema,
vomito palavras de nonsense
o que é como um orgasmo reverso,
uma alucinose que faz sentido
ou cócegas apenas
para o que sofre,
o que as expele
e ñ quero ir pra casa, Poema,
eu ñ quero voltar ao trabalho
ao esforço de santidade
levantar tocar o interruptor que acende a LUZ
eu quero subir como Elizeu
mas sou um capitão de pecadores, um
excretado,
um cachorrinho sarnento de Lutero.

Poema meu Campo de Fluição,
ontosignocampo
do indivíduo registrado pelo Estado como
Sammis Reachers Cristence Silva,
um diabo sem caudas,
um salvado pela graçasa solamente

Sim, Salamim, há h(idrom)ell no Valhala e espasmos de gozo
na viagem no colo célico das Valkírias
mas qual a tua garantia, pó,
de que não despertarás no Reino da Morte de Hella?

Espantam-se contigo, versoldado, esperavam um poema cristão homologado,
um poema cristão pacífico e linear do querido irmão Sammis,
e deparam-se com seu anarcosmo, e não sabiam
de minha vida outra como Porta-voz da Melancolia,
minha outra vida como outro escravo
se alguns são escolhidos para as grandes fortunas,
não seriam igualmente escolhidos outros para as grandes angústias?
Mas como relatar-lhes, como encontrar na Escritura versículos
que os pacifiquem?
Difícil para nós, Poema, como livrar-se do abraço da Valkíria
em pleno voo,
                           e vivemos então nossas vidas

sabendo que não há linearidade alguma no caminho da terra ao Céu.

31/08/2014


Faz mais de mês q ñ lhe escrevo, Poema.

As vezes vamos amontoando poemas como
um tribunal acumula processos, prostitutas
(ou tribunais) colecionam taras e lamúrias
de clientes, e mentalmente sorriem calculando
a taxa de repetição que cada uma comporta.

Sim, pouca poesia nisso: e compomos um livro,
e eis aí um livro no mundo, um objeto
como uma maçã ou retroescavadeira
ou um deus desses de barro ou entalhe.

Sim somos poetas: presos, possessos
entre coisas, fogos enjaulados, sem nada
que dirima nossa sensibilidade.

Sim, homens: pelúcias carregando
suas fraturas expostas.

10/10/2014


Faz tempo que não venho até aqui, Poema. Sabe como são as coisas, como não são. Vim lhe contar um sonho. Ele teve aquele raro (para mim, um não-profeta) tom augúrico, aquele élan de transcendência.
Um velho bastante enrugado. A materialização em carne do velhote do desenho animado Coragem, o Cão Covarde – pois afinal há alguma verdade em Platão. Iniciei, com a onisciência própria dos sonhos, vendo-o dentro de uma casa trancada, onde tudo jazia quebrado, com sinais de que assim já estava há tempos. O velho tem a expressão ranzinza até a medula, mas uma característica o define, resume e adjetiva: seu inviolável mutismo. Sua palavra recusa-se: ele é aquele que cala.
Me aproximei da casa, que embora trancada, possuía amplas janelas envidraçadas (a destruição da casa fora causada de dentro; o exterior apenas sofreu a ação do tempo).
Ao perceber minha aproximação, o velho ranzinza e silencioso imediatamente saiu daquela casa, atravessou a rua e adentrou em outra casa, a sua própria, onde se trancou em seu quarto. Perguntei à sua senhora, uma velha afável mas indiferente, e ela disse que ele não iria me receber de maneira alguma. De onde estava via tudo; você sabe que nos sonhos somos oniscientes deuses, embora tal poder se apresente embaçado, pois ali somos deuses em infância.
O velho tem algo a dizer, ele é a imensa possibilidade de comunicar algo, mas recusa-se, e foge furiosamente de mim.
Refletindo hoje, penso que o velho é a encarnação ou figuração do mais terrível dos versículos: “As coisas encobertas são para o Senhor, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29) - o Incognoscível, o conhecimento velado e impedido que pertence só a Deus. A casa destruída por dentro é a realidade da Queda, é o mundo onde estou e aquilo que sou; a casa é o próprio status ‘Queda’. Um furacão destruiu seu interior; o tempo acabou de debilitá-la. E aqui um insight menor: não é o tempo exatamente um furacão, mas camuflado numa velocidade hiper slow motion? E não é significativo que o velho estivesse DENTRO da casa?
O velho é perturbador e angustiante, mas ao mesmo tempo desejável, pois não causa medo senão estranhamento por sua alteridade, pois ele guarda um tesouro, ele próprio é o tesouro e seu feroz guardião. Um banco de dados e um firewall, ambos arquetípicos ou supremos no que são.
Mas de tudo o toque mais augúrico e o insight que deitou tal sonho a um superior patamar foi o fato de que, no sonho e apenas dentro do sonho, me lembrei de já haver sonhado com aquele velho; o mesmo mutismo furibundo e em fuga, múmia de dados encriptados (sei que sua aparência é apenas camuflagem e o velho método espantalho). Ao acordar, soube que nunca sonhara antes com ele; de onde então, no sonho, a certeza fotográfica daquela lembrança?
Esse humilde sonho foi um presente de Deus em meu prol; ao ‘materializar-se’, ao ganhar uma face, de certa forma me aproximei do Incognoscível, me aproximei daquele que me foge, cujo leitmotiv é fugir-me. O Impossível, ele agora possui um rosto, ao menos para mim; e dei um passo para além dos outros homens, ao menos para aqueles seletos e parcos para quem a existência do Incognoscível é um estorvo: pois eu agora posso reconhecê-lo na multidão. Ele a própria Incompreensão, eu agora posso vê-lo, ainda que de um único e turvo ângulo.

Meu Poema, nas filosofias e teologias de oriente e ocidente, Incognoscível quase sempre remete a Deus ou o princípio criador universal, a quem não se podem engajar atributos – o que não pode ser visto, medido, conhecido; o que não pode ser descrito. O conceito que dou à palavra é outro, ou seja, ele é simplesmente o volume ou abismo de conhecimento que não podemos apreender, seja devido à nossa própria natureza humana-finita (independente do evento Queda), seja à nossa condição de humanos caídos. Afinal Deus não é incognoscível, embora absconditus (Is 45.15), embora goste de ‘se esconder’, dada a separação multiníveis que a Queda interpôs ente Ele e o homem. Ele é um Deus pessoal, que se (re)revela ao homem caído ao longo da História, e que ao fim da mesma História, na plenitude dos tempos, revelar-se-á por completo, e o conheceremos como somos por Ele conhecidos. E conheceremos o que Ele conhece - e o velho abrirá as portas, e sua alteridade será equalizada, e ele estenderá a mão (1Co 13).

P.S. – Após escrever o ocorrido no sonho e minhas imediatas impressões, ocorreu-me outra expansão, menor em poder e clareza, pois como equiparar reflexão com revelação?:
Você acorda e vê, ao lado de sua cama, um círculo, melhor, um anel de alguns metros de diâmetro, flutuando diante de si. Nada há dentro dele; é um aro qualquer, um bambolê. Você entra no anel, mas nunca sai do outro lado. Esse é o Incognoscível. Ou: uma porta aberta no nada, uma porta diante de você: você entra por essa porta, você pode ver o outro lado, nada há lá senão a mesma paisagem em que você se encontra. Mas ao entrar, você nunca sai em lugar algum. Veja, não é um mergulhar no infinito. É um mergulho em lugar nenhum, é um devir, um eterno mergulhar e ao mesmo tempo uma paralisia – um impossibilitar-se no próprio oceano das possibilidades, um paradoxo como nunca houve nem haverá. Não há saída do outro lado. Não para mentes como as nossas. O anel que leva para todas as coisas, onde se entra-para-lugar-algum,  eis o Incognoscível.

25/12/2014


Ainda estou aqui, Poema. O tempo quedou em novas dialéticas, estudos retornaram, reembalam o miolo do moleque (o corretor automático aponta erro em 'reembalam'. Deus, sou um poeta e para que preciso de um corretor, para que um pássaro precisaria de guelras?!!!)

Poema, caderno de crises,
estela de Osíris quedo de seu carro de sol

alegorias de calor
massacrante, persecutório,
propedêutico:
sensaboria de palavras; vilania.

encalacrado no coração de cada caos
jaz um jazz uma música
de não-algorítmos
sim, uma alegoria

para além da alteridade radical:
a alteridade abissal
o tecido dilacerado do Tao:
Confúcio, Krishna, Zaratustra

um buraco negro:
ambulatório do tempo.
(Mas os físicos ainda não o descobriram; e quando puderem
dirão que descobri isso [através] do demônio)

Continuemos, meu poema eletrônico distendido sobre
kilobites de kaos
há palavras morrendo espalhadas na areia, Poema
veja ali, artifício
pato, logoterapia
palavras morrendo lesmadas,
em humidade lenta
imersas em m4les
mersas e 4les
ersales
Versalhes
versos males
di Mefistófeles

e

palavras ortopédicas com as quais você
não contava, mi poemito
afo suropodalico, kafo cruro podálico
Hkafo pélvico, também podálico, poema
e uma barafunda de órteses e próteses,
prefixos, sufixos, gregos, marcianos, latinos
e gauches

25/07/2015


Ó mais triste e longo poema que eu pude
as solicitações avolumam-se
homens me solicitam
, plantações de ananases, sucursais amorfas do Estado
, pedidos
de baixa
, favores
, um ouvido para que contem as mesmas 15 histórias
, 30 vezes ouvidas, auditadas, decompostas em pastas
solúveis em maionese
, passíveis de patê
e o Tempo, o mor-solicitador
Cachalote de Tudo buscando Jonas

Sim, posso dar aulas para eles, poderei dar quantas aulas o Estado solicite
mas kierkegardianamente lhe pergunto 
, amarei ensiná-los?

Poema, Nau Antrópica
não importa quantas vezes mordam a maçã
, não importa
que ela germine dentro deles
, contaminalimentando suas gerações
, eles não entendem...

Tentam a teologia
: Cegos, acreditam no poder das lanternas
: Incapazes de perceber a única resposta
que lhes poderia a teologia
, súmula do absurdo e sua exausta sibila 
: Há sentido, mas apenas para o Um.
O Universo a Vida o Tempo as disassociações e amálgamas de fragmentos
são um livro selado na língua do Um, autossuficiente autoinerente e a Ele destinado.

Poema, Antrópica Nau
alimento para o Tempo
, o Cachalote de Tudo
: devora-me para que eles me decifrem
e assimilem em suas repetições sob o sol
, devora-me antes que percebam
que o mar onde me lançaram
é o próprio leito em que dormem
as mulheres e crianças que deixaram para trás
, sua segurança equilibrada na navalha impropícia 

Devora-me antes que eles
embriagados me perguntem do Um
e eu lhes afogue com a minha inresposta

Devora-me, Cila, para que eu não conheça Letícia
e Rebeca e Amarilis e Fabrícia
e outras ilhas para onde possa arrastar
a justa vindima do Um
que marcha após o passo de todas as coisas
e com fogo equaliza 

Devora-me para que nosso Pai
, o Deus dos Cachalotes
se apiede de mim e me receba
em seu mar obscuro.

22/08/2015


A Escuridão gesta estrelas,
despede cartas de amor
sem destinatário:
Títulos ao portador, a quem interessar
possa

Poema, fiz esta ausência, esse emasculado hiato
:fui mais ocupado e feliz neste ano de 2015, amigo:
os estudos, a Revista, a nuova frontiera

quanto a ela, oh meu arleckim de qristal
a felicidade só é inspiração para os palhaços,
não para nós, que nunca usamos maquiagem e gargantilhas.
E temos sido homens, apesar de tudo. Como Heitor ou Paulo o Apóstolo.

Mas, contra os fatos, tentaremos um dia. Quando estivermos sóbrios de vida.

De mais a mais e sempre por sobre o lotérico mar de mais,
se a Poesia fosse um jogo de RPG,
a Felicidade e suas aproximações
seriam aquela curingofálica
carta que cancela as outras cartas.
E termina a partida.

Mas Deus nos fez jogadores, meu verbo tântrico,
meu gato siamês e duplo de inações inveteradas.

Fez-nos membros dos
poetas, essa frágil confraria.

05/12/2015


Sorrisos de meninas homeopáticas
síncrotrons para comprovar a existência
do Deus ululante
votar na Chapa 3
da eleição do Sindicato
todo santo/maldito dia
construir sentido

Formigas crescidas cuja trabalheira
é construir sentido

Dominique Tartaglia
quer nos contratar para uma sabotagem

A população de Odessa apoia o Potenkin

A menina mais linda do Novo México
é membra da Comunidade Católica Divina Luz
seria ao menos são, já que nada
me é lícito, tornar-me católico
para cortejar tão sobeja deusa?
Diga, Poema. Esparrame seu
aniquilirificado Não. Tudo nos convém.
Vamos fazer bandeirinhas de São João
com seu Não monocórdio. Monocolores bandeiras, visanáguas.
Mas como eu gostaria de beijá-la, tão serificada e desmaquiada.
Sempre desmaquiada, firme em sua certeza de que sua beleza lhe basta.

...longe do meu domínio
Cê vai de mal a pior
Vem que eu te ensino
Como ser bem melhor... ” um anjo
louro, uma anjo loura canta
em meu celular Alcatel de 250 reais.

O domingo é propício ao poema
quando trabalho e danço em toda minha nudez
com a solidão do asfalto e do dia
e a ausência dos homens, sóbria & perfeita festa
e minha caneta e meu vazio est’outro universo
sobre quem o Universo habita, com seus planetas-batatas que Galactus que não arou não há de comer.

E tais cismas batatais prum domingo bastam.

13/03/2016

Nensei o que faço
Discei o que sou ou sou
As andorinhas a quem meu Pai
Não deu asas
E vivem diluídas
Entre as galináceas
Pequenas & perdidas
Andorinhas entre galinhas
Disfarçadas com suas máscaras
Caintes, despencosas, maiores que seus rostos

E avantravamos no estudo dessa Enfadonhonhonhonhologia

e estabelecemos nossa representação dentro do território o(r)b-escuro
nas fraldas da noite, anciânica cortesã

e ansiamos a morte do narrador e a ressurreição do caçador dasas 
o narrador decomposto em suas microsemânticas 
e temos sede

sede da operacionalidade do princípio, das múltiplas ou infinitas ou imaculadas chances que todo princípio é, possui ou gera.

Sede do primeiro amor.

08/05/2016

A velha guarda do vazio
Aguarda a chegada de alguém
Enquanto tamborila um velho samba de Noel
E acumula antologias

Uma manifestação dobra a esquina,
Procissão de la Santa Muerte
                                      ou uma princesa de fria experiência
Questionadora, marcada, na linha de corte ou prumo
Entre a razão e a insensibilidade

Repito o usual, ligo meu coração na tomada,
Ele principia a carregar, em sua tela leio

C: / Rodando sub-rotinas de humanitude: Config/Familia1/

Pois quem sabe é desta vez, Poema?
Quem sabe eu possa fazer de conta e
seguir a Procissão.

Não, amigo; ela, langorosa Pandora astral,
Porta o fel dos magos e abriu
O Mapa Negro dos Destinos
E descobriu-me (e o fez como que
Para mim) um colapso dual, uma dubiedade
Um continente que pode a qualquer instante implodir ou explodir
E isso não é homem que mulher alguma mereça

A alguns a Escuridão mata na Tempestade
A outros a Escuridão
Recruta na Tempestade;
Método de qualquer deus caído.
As noites se sucedem e eu imagino:
Qual será seu propósito para nós,
Meu amigo imaginário, meu simbionte
Cardíaco?

Do alto do cume nietzschiano
Deus, o impossível de morrer, sibila:
Eleve seu coração;
Ainda um trecho mais de marcha.

Venha, Escuridão; Meu Deus nos tocará sua rabeca;
Sou um candelabro frágil de lâminas de chamas
Enviado para que você tente me capturar,
Um engodo
No céu sonhado.
Um de milhares.

17/07/2016

Há um argentino em meu trabalho, Poema.
Um homem que diz já ter sido técnico de futebol
e empresário e outras coisas de interior e fronteira.
Não sei o que veio trabalhar aqui,
num Brasil tropical de péssimos empregos. Ao menos os nossos.
Este homem, em sua juventude,
fora auxiliar e moço de recados em uma alfaiataria
na Buenos Aires ainda mítica.
Este homem, esse argentino bonachão de meia idade
que cursa Direito na Estácio e possui alguma
sinistra história
- Assim como cada imigrante improvável
que busca dissolver pela distância
a dor ou o coração ou o crime -
conheceu Jorge Luís Borges, o cidadão e o totem.
“Acho os livros dele chatos”, ele asseverou certa tarde,
boca cheia de biscoitos, sem saber o que dizia.
“Foi até a alfaiataria, certo dia,
Com sua secretária, a buscar um terno.
Apertei-lhe a mão.”

Nos dias de faina cansada, estresse e duro realismo,
quando o próximo me atropela com suas estupidezes
e desgraciosamente faço do cristianismo um candelabro de pequena chama
em minha biografia,
olho para aquele homem passando e penso
“aquele homem atarracado a quem toco quando quero
e a quem dirijo as perguntas que quero,
conheceu Jorge Luis Borges,
a sombra e o pequeno deus.”
E baixo os olhos abismado, em silêncio, retomando com outro fôlego
meu trabalho insignificante, de certa etérea forma
e por locação ou ocupação membrado
em uma região menos infeliz ou pouco insólita da Realidade.

17/09/2016